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Recado

Já me ocorreu, antes, de morrer por dentro de forma súbita. Vivi muitos processos de lutos internos, que se arrastaram por tempos infinitos, até ser capaz de ressuscitar. Há oito anos, eu chorei o ano inteiro; hoje eu queria querer chorar. Fui alertada por uma amiga querida (que já o fez antes sobre tantas questões) que tenho problemas com o processamento da dor. Sou teimosa, mas meus pensamentos pensam pensamentos obsessivamente, lógico que considerei o aviso.  Acho que tenho medo de voltar a chorar mundos inteiros, completamente apavorada com o falecimento de alguma camada da alma através da tristeza. Em 07 de junho de 2022, publiquei na minha newsletter sobre os traços traiçoeiros da minha personalidade; revisito sempre os meus escritos do passado, resquícios dos questionamentos que me trouxeram até aqui. No parágrafo que me trouxe até aqui, eu digo que "As minhas artérias carótidas trabalham fisiológico e subjetivamente sem descanso; tem quarenta mil corpos neuronais no meu co...

Enquadro

 Fora o esculacho que é saber que não somente a culpa é invenção cristã, também é o perdão; entendi que dentro desse imaginário tem coisas que não tem nem perdão e nem culpa. Achei que não estava deprimida, mas quem que não está e quer dormir por três meses? De um cansaço ancestral. No calabouço das emoções, eu queria querer chorar. Incomoda, porque também sou outras coisas além da tristeza, mas me parece que nesse momento fiquei monotemática - comigo mesma, uma discussão constante das outras de mim. Veja bem, o meu dilema é puro ego, uma vaidade, uma ferida tão antiga que perdi o time . Revisitar a infância é tenebroso, são histórias que a gente reconta pra si mesmo, as ideias mudam, muda também a perspectiva sobre os acontecimentos. Todos os meus pontos de vista se sentem feridos. Não consigo me livrar dessa sujeira, nem com um milhão de banhos. Ninguém tem culpa, mas ninguém tem perdão também não. Tem me consumido compreender que parte do problema sou eu, obsessiva, atando a mim...

Atino

 Eu podia jurar que não me sentiria tão espancada pelo meu retorno de saturno. Tomei como garantia uma vida inteira apanhando e supus um acerto de contas diferente. 'Habito as fronteiras da travessia do espelho, point of no return' e, me parece, esse atino é comigo mesma. Falei tanto sobre morrer por dentro e nascer de novo que dos anos passados pra cá eu me encontro presa no meio, 'em febre constante'.  É extremamente solitário existir na contemporaneidade. E digo isso como quem ama existir. Sinto que não consigo admitir que tá lotado de escrotidão mundo adentro, porque me fere profundamente existir nesse cenário e meu coração urge por uma revolução, um estalo, qualquer faísca de mudança horizontal. É altamente frustrante.  Tenho tentado muito sobreviver a esse ano, muito mesmo; e escrever, qualquer coisa até sair alguma coisa. Totalmente em crise comigo mesma e com a minha vida, acumuladora obsessiva de mágoas a respeito do passado, cheia de feridas abertas. O que é q...

Papel celofane

 A minha crise mais atual é a da controvérsia humana; sei que somos 'sim e não', 'isso e aquilo', 'faço ou não faço' ao mesmo tempo, mas esse niilismo me deixa engasgada, como se o sentido não existisse também dentro de sua ausência.  Esse ano faço trinta e sinto que o mundo tem tentado me vencer pelo cansaço e, ah, quando cê fica cansado o pensamento crítico se assenta, o desejo pela transformação se acomoda, como se os sistemas dominantes fossem axiomas. 'Se for pra nós viver por isso, eu prefiro morrer pelo que eu acredito'.  Tenho sonhado pra cachorro, sobre o meu lindo mundo da imaginação, como se fosse preciso só um estalo para que pudéssemos enojar aquilo que fede e anda ao nosso redor, para que considerássemos cenas cotidianas de um horror mais terrível que invocações do mal.  O que não faz sentido pra mim é não bancar quem se é, sabe? Como se só porque o arquétipo reluz igual ouro, fosse ouro e não lixo em papel celofane. 

Impermeável

Você me diz em um minuto e meio o quanto a minha frieza te surpreende, com um tom que se mistura, que transita entre o choque hipócrita e a sua crise narcísica. Fico triste, lógico, mas quer me matar de raiva é me forçar a ouvir gente sem moral, gente que não vale o chão que pisa.  Ouvi quinze segundos e meu dia quase acabou - mas não tive o privilégio de me recolher e sofrer o lugar que me foi designado. Entre tentar existir nos espaços que antes me trouxeram alegria (como o acesso a universidade e o escutar músicas a tarde sentada na frente do computador) até a lista interminável de coisas a fazer (oferecer um mini curso, me deslocar pela cidade, buscar a criança na escola, vestir o uniforme e ir trabalhar) ainda faltaram um minuto e quinze que eu nem quis, nem consegui e nem precisava ouvir.  Essa estrutura devastadora de ter que ser permanentemente mais maleável, mais desdobrável, mais mansa. Mais??? Estou por um fio do ressentimento crônico, intrinsecamente relacionado co...

Lagarto ao Sol

 Você me diz que perdemos o jogo, está tudo condenado, não há escapatória. Discordo, meu coração é seara da revolução, não se dá por vencido. Você diz que isso é uma vida de grande sofrimento, de uma insistência gorada. Para mim, a confusão que permeia esse intelecto ardiloso é não compreender que o mau do urubu é pensar que o boi tá morto.  Não se deixe enganar pela mulher desdobrável, não se desatente com o aguardo silencioso, o que é teu tá guardado. "Todo o tempo é ouro, a hora é sagrada", não sou capaz de perdoar a exploração que captura a existência, aliena o pensamento, aprisiona a horizontalidade de perseverar.  Quando o fim desses tempos chegarem e o tribunal final estiver posto, prometo que serei eu aquela que cortará a sua e a cabeça dos seus, de punhos firmes mantidos pela raiva dos banidos, dos loucos 'que caminham livres pelas terras verdes do conhecimento'.  Escrevo inflamada pela raiva, combustível de uma alma que teme, mas faz o que tem que ser feito...

"Fechada igual caixão"

 Acho que fui perdendo a vontade de escrever porque o tamanho das incertezas me deixava insegura de só começar. Sinto que a vida adulta foi me amargurando e que fiquei presa nas frestas das coisas que estão ocultas e as que se materializam através dos olhos. Quando fiz a disciplina Fundamentos da matemática elementar I, fiz sabendo que era sobre a filosofia ter me colocado em situações completamente não cartesianas porém racionalizáveis até demais. Tenho escrito menos, porque racionalizo as possibilidades em ruminações intermináveis, lacrada dentro de mim mesma. Nesse momento, tem sido difícil escrever com tinta branca - ou escrever solamente .