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Fugitiva

Uma coisa que eu desprezo, é ser tirada de maluca. Fico com raiva, porque em geral eu sou muito sóbria sobre as coisas que acredito e defendo, sobre os meus anseios, sobre as batalhas que travo sem terror nenhum. Se for preciso, eu caminho sob as águas e a gente disputa em mar aberto, pode até trazer seu jesus junto pra te ajudar. Foda-se.  Fato é que me acontece muito de ser constantemente colocada em determinadas jaulas, porque quando não maluca, então reativa, grosseira, treteira, mandona, difícil de lidar, radical, militante, combativa, feminista, desbocada, agressiva, doida, inacessível, subversiva, ousada, esquisita. Poderia ficar aqui por horas.  Fico presa no meio entre ser mulher e ser anti mulher. Por um lado, performo algum tipo de feminilidade: raspo o sovaco, pinto o cabelo, uso maquiagem, sou doente com a magreza, pinto as unhas, sou mãe, pratico o cuidado e exerço o trabalho invisível e não remunerado destinado às mulheres. Por outro, sou totalmente anti mulher:...

Volume zero

Fazia tempo que eu não morria por dentro, porque fui remendando minuciosamente o exoesqueleto e sumindo no precipício que é ser funda para dentro . Capturar a mudança inevitável da existência é brutal, já não sou mais a mesma, mas às vezes sinto falta do que habita o nunca mais — de quem me despedi e das várias de mim que foram estraçalhadas pelas fissuras no córtex pré-frontal. É preciso falar muito alto de dentro para fora, de forma que a minha voz consiga sair pela boca. No mais, eu sou uma mulher silenciosa, porque é verdade e, também, porque fui me recolhendo ao longo dos anos. É muito difícil ter um coração gigante e amar sendo uma mulher endurecida pela vida; gato escaldado tem medo de água fria. Fico um pouco chateada — porque é muito solitário ser quem a gente é pela nossa própria perspectiva — mas reservei tempo indeterminado para me sentir da forma que for, mesmo que venham ondas de tristeza avassaladoras e eu demore a encontrar as correntes de retorno. Sammytime Sadness, ...

FIAT LUX

Fiquei triste porque você partiu. Chorei muito no decorrer do processo, porque existia no meu coração o assombro do encerramento dessa narrativa. Lembro de você o tempo inteirinho, porque fomos construindo a nossa relação tijolo após tijolo, e agora sou só eu no meu castelo de Condessa. Escuto Djavan e penso em todas as idas a São João Nepomuceno, com uma horinha de som rolando, porta-discos e os caralhos. Contava os bois que via pela estrada ao som de Luz ; depois que minha irmã passou para o banco da frente, às vezes eu ia deitada, fitando o céu. Lembro dos sorvetes na Sobel e dos domingos na Cantina do Amigão. Também das vezes que a gente te enlouqueceu na adolescência. Teve também o seu hiperfoco em DVDs, e, de repente, a sala era lotada de prateleiras com mil e um filmes. Escrevi o passo a passo para você mesmo gravar no computador e ainda desenvolvemos uma tabela onde você conseguia localizar qualquer filme em sua exata prateleira. Tive a honra de dividir um chão de fábrica com v...

Triângulo da tristeza

Iniciaria essa sentença dizendo que o amor na contemporaneidade é complexo, mas depois de pensar dois segundos sobre isso, percebi que, na verdade, é o tecido social que está rompido, é o ser humano que está quebrado. Ser pessoa na contemporaneidade é complexo. Talvez porque se vive cada vez menos em comunidade, mesmo que ainda existam espaços subversivos — exceção não faz regra. Fato é que me abateu o pensamento de que ser pessoa no contexto neoliberal é contra-hegemônico e, portanto, o amor é penoso. Fiquei chateada, porque encarei com certa distância a ingenuidade da juventude, com os olhos meio cerrados e o triângulo da tristeza tomando de assalto a expressão da face. Como é que se ama “porque sim” depois do enrijecimento da alma? Não existe resiliência na alma; o que existe é a petrificação das variáveis do desejo, esconderijos secretos criados pelos neurotransmissores que mudam a química do nosso cérebro. Amar era mais simples por puro saudosismo — porque, quanto mais se toma con...

Cavar pra cima

Ficou a ressaca dos tempos de guerra. O fim dos ciclos é sempre um fim dos tempos. Na minha trilha sonora do Apocalipse, saxofones sopram (não tão) gentilmente ao fundo. Das minhas múltiplas formas de tentar ser pessoa, queria dizer que me orgulho muito de ser uma mulher combativa, um divisor de águas. Ao mesmo tempo, minha filha me diz que eventualmente eu tenho esse "olhar perfurador de almas" — que, em sua maioria, é minha cara de paisagem. Me chama a atenção, porque me diz que a minha feição está endurecida. Desaguei demais. Meu grande desejo da vez é desanuviar. Jogar pro universo, desapegar do ressentimento, cavar pra cima. Sobreviver ao choque e construir vida depois. E eu sou mulher de segurar a rédea da própria vida nas mãos, rente ao peito, como quem diz que eu posso até estar cansada do combate, mas que "quem tá morta é a Hebe".

Kintsugi

Eu quero fazer o meu rolê e o mundo é complexo . Sei lá. Nesse último semestre a vida tem sido uma loucura, uma vibe meio a esperança dança na corda bamba de sombrinha . Fato que fiquei rançosa com a vida e as pessoas e as relações permeadas até o talo pela imundície do neoliberalismo. Me feriu profundamente encerrar vínculos de longo prazo, lacrar as portas, sumir do mundo ou o mundo sumir de mim. Claro que o meu temperamento colérico de mulher agressiva anseia por uma confusão, uma grande troca de berros olho no olho, pau quebrando, guerra, paulada na nuca. Só que, ao mesmo tempo, eu estou economizando a minha saúde mental, sabe? De saco cheio pra caralho. Eu sou uma operária. A minha alma é apaixonada pela subjetivação que advém do trabalho: o fazer juntos, aprender e ensinar, compartilhar nuances do cotidiano, a sensação de jogar a toalha no fim do expediente e saber que foi a finesse do setor de serviço. Quando o labor é atravessado por outros eixos da existência e desvia um pouco...

Outros mundos

A realização da passagem do tempo foi brutal, esse ano fui o pão que o diabo amassa e o diabo amassando o pão. Revisitei muitas vezes o passado, consegui admitir o meu ressentimento e identificar as faces com as quais ele se apresenta. O campeão na corrida para a minha maior ferida é, sem dúvidas, como o masculino funciona no mundo, essa instituição escancarada da dominação. Acho tenebroso, fico ruminando a falta de sentido que é submeter o outro ao perverso - para mim, o perverso é retirar do outro o direito de ser pessoa. Caralho, sabe? Trinta anos e eu ainda não me sinto gente , inadmissível.  A ruminação é o maior sintoma do ressentimento; talvez me falte coragem 'pra viver fazendo as pazes, ou quase' . Essa última revolução solar foi uma coça, andei em carne viva o ano inteiro, meti o meu louco, sofri muito todos os últimos combates. Tive que reaprender a chorar as dores, senão eu seria por mais tempo aquela que está sempre por um fio e, honestamente, nem posso dizer que e...