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Impermeável

Você me diz em um minuto e meio o quanto a minha frieza te surpreende, com um tom que se mistura, que transita entre o choque hipócrita e a sua crise narcísica. Fico triste, lógico, mas quer me matar de raiva é me forçar a ouvir gente sem moral, gente que não vale o chão que pisa.  Ouvi quinze segundos e meu dia quase acabou - mas não tive o privilégio de me recolher e sofrer o lugar que me foi designado. Entre tentar existir nos espaços que antes me trouxeram alegria (como o acesso a universidade e o escutar músicas a tarde sentada na frente do computador) até a lista interminável de coisas a fazer (oferecer um mini curso, me deslocar pela cidade, buscar a criança na escola, vestir o uniforme e ir trabalhar) ainda faltaram um minuto e quinze que eu nem quis, nem consegui e nem precisava ouvir.  Essa estrutura devastadora de ter que ser permanentemente mais maleável, mais desdobrável, mais mansa. Mais??? Estou por um fio do ressentimento crônico, intrinsecamente relacionado co...

Lagarto ao Sol

 Você me diz que perdemos o jogo, está tudo condenado, não há escapatória. Discordo, meu coração é seara da revolução, não se dá por vencido. Você diz que isso é uma vida de grande sofrimento, de uma insistência gorada. Para mim, a confusão que permeia esse intelecto ardiloso é não compreender que o mau do urubu é pensar que o boi tá morto.  Não se deixe enganar pela mulher desdobrável, não se desatente com o aguardo silencioso, o que é teu tá guardado. "Todo o tempo é ouro, a hora é sagrada", não sou capaz de perdoar a exploração que captura a existência, aliena o pensamento, aprisiona a horizontalidade de perseverar.  Quando o fim desses tempos chegarem e o tribunal final estiver posto, prometo que serei eu aquela que cortará a sua e a cabeça dos seus, de punhos firmes mantidos pela raiva dos banidos, dos loucos 'que caminham livres pelas terras verdes do conhecimento'.  Escrevo inflamada pela raiva, combustível de uma alma que teme, mas faz o que tem que ser feito...

"Fechada igual caixão"

 Acho que fui perdendo a vontade de escrever porque o tamanho das incertezas me deixava insegura de só começar. Sinto que a vida adulta foi me amargurando e que fiquei presa nas frestas das coisas que estão ocultas e as que se materializam através dos olhos. Quando fiz a disciplina Fundamentos da matemática elementar I, fiz sabendo que era sobre a filosofia ter me colocado em situações completamente não cartesianas porém racionalizáveis até demais. Tenho escrito menos, porque racionalizo as possibilidades em ruminações intermináveis, lacrada dentro de mim mesma. Nesse momento, tem sido difícil escrever com tinta branca - ou escrever solamente .

Marte em Leão

A escrita da contemporaneidade é dolorida, para mim, no que tende à tristeza. O neoliberalismo (nem tão sorrateiramente assim) se torna uma infiltração gigante na parede do quarto, daquele tipo que o mofo causa alergias respiratórias. Constantemente repito em voz alta que 'estou cansada demais' ou 'eu só trabalho' e, ainda, 'eu não tenho vida antes das duas da madrugada'. Não é totalmente verdade, porque existo em outros horários onde sou outras tantas versões de mim mesma; porém, é somente entre as três e as cinco que me sinto pertencente a narração da minha história particular - a que não envolve outros. Nesse cenário, não fico apenas ruminando as memórias, como também sonho de olhos abertos com o horizonte perfeito que habita a minha imaginação.  Mesmo assim, ainda há verdade nas minhas afirmações, sigo correndo para capturar o tempo e ser, na maior grandiosidade possível, aquilo que dá para ser. Tem quem me diga que dou importância demais ao que é humano - p...

Apendicite

Descobri que existe certa distância entre o trauma e o ressentimento; um deles é capaz de ir se dissolvendo, de dar espaço à outras memórias e experiências, o outro se impregna nas suas entranhas e se desenvolve dentro de você feito um órgão. Em 2023 fiquei exausta dos traumas e das ruminações. Sigo em eminência de um colapso, porque a tristeza é imensa e há respostas que nunca virão, pedidos de desculpas que nunca se farão suficientes, perdões que não cabem a mim oferecer. A maior das tristezas é a dificuldade de visualizar o que eu fiz do que fizeram comigo e quem eu sou a parte disso; me apavora a ideia de que eu sou apenas um apanhado de histórias que eu conto para mim mesma - ou sobre mim mesma.  Sabe que eu sempre detestei os arquétipos de guerreiras, deusas, mulheres que só são consideradas incríveis porque transcenderam a humanidade. Um dos meus desejos mais profundos é o direito a ser uma pessoa - falei disso um montão de vezes. Recentemente tatuei o rosto de Deméter, a mã...

Ressentimento

 É complicado dizer que estive em uma depressão. Meu momento mais deprimido tem a ver com um ressentimento tão antigo que sinto que me apeguei a ideia de que queria importar a alguém - hoje já não consigo afirmar com tanta precisão. De aniversário esse ano, me dei um lugar novo para morar e isso foi, sem dúvidas, a minha maior conquista de dois mil e vinte e três.  Ando tentando curar o ressentimento, porque deixei que ele me engolisse e retirasse de mim os meus alicerces comigo mesma. Tranquei a faculdade como quem tranca a si próprio nas profundezas do eu, passei dez meses inteiros prisioneira num quarto escuro e úmido, feito pulga - a praga que se manifesta nas minhas mágoas e se multiplica num piscar de olhos.  Há muito o que colocar no lugar. As vezes me sento a mesa de plástico na sala e imagino um mundo novo, porque a desesperança é reacionária e não sou conservadora, anseio pelos recomeços o tempo inteiro. Nesse sentido, já não posso mais passar um durex nos plan...

Ostra nasce do lodo

Achei que não fosse conseguir escrever o meu texto sagrado sobre a minha mais recente revolução solar, praticamente não escrevo mais fora das linhas da minha cabeça. Teve tudo aquilo do que não consegui escapar. Fiquei triste de verdade, sinto que fui encolhendo e não consegui mais voltar a escrever, porque as ideias ficavam soltas, raivosas umas com as outras, sem a possibilidade de definir o que é, exatamente, o que eu vou dar como encerrado nas minhas ruminações. Receio que eu tenha me encontrado com assuntos de um outro eu, e me fere profundamente, porque o amor é o que se faz, não o que se fala.  Completei o último dos vinte e anos. Na última vez que estive aqui cumprindo esse ritual, desejei que o que viesse, não gerasse tumulto. Sinto que fui ingênua com o meu otimismo, porque passei o meu último ano enfrentando bestas enormes do meu passado. Andei tanto em círculos que cavei um fundo do poço, paguei o aluguel mais caro do mundo; depois realizei que mereço mais, juntei ...