Fazia tempo que eu não morria por dentro, porque fui remendando minuciosamente o exoesqueleto e sumindo no precipício que é ser funda para dentro. Capturar a mudança inevitável da existência é brutal, já não sou mais a mesma, mas às vezes sinto falta do que habita o nunca mais — de quem me despedi e das várias de mim que foram estraçalhadas pelas fissuras no córtex pré-frontal. É preciso falar muito alto de dentro para fora, de forma que a minha voz consiga sair pela boca. No mais, eu sou uma mulher silenciosa, porque é verdade e, também, porque fui me recolhendo ao longo dos anos.
É muito difícil ter um coração gigante e amar sendo uma mulher endurecida pela vida; gato escaldado tem medo de água fria. Fico um pouco chateada — porque é muito solitário ser quem a gente é pela nossa própria perspectiva — mas reservei tempo indeterminado para me sentir da forma que for, mesmo que venham ondas de tristeza avassaladoras e eu demore a encontrar as correntes de retorno.
Sammytime Sadness, volume zero, sem luz.
Para o ano que vem, eu quero querer nascer de novo, continuar tentando cavar pra cima, esboçar novas narrativas. Por enquanto, não sei.
(Vim cumprir o meu ritual anual e escrever o texto da minha revolução solar, mas, dessa vez, quase não consegui.)
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