Pular para o conteúdo principal

Outros mundos

A realização da passagem do tempo foi brutal, esse ano fui o pão que o diabo amassa e o diabo amassando o pão. Revisitei muitas vezes o passado, consegui admitir o meu ressentimento e identificar as faces com as quais ele se apresenta. O campeão na corrida para a minha maior ferida é, sem dúvidas, como o masculino funciona no mundo, essa instituição escancarada da dominação. Acho tenebroso, fico ruminando a falta de sentido que é submeter o outro ao perverso - para mim, o perverso é retirar do outro o direito de ser pessoa. Caralho, sabe? Trinta anos e eu ainda não me sinto gente, inadmissível. 

A ruminação é o maior sintoma do ressentimento; talvez me falte coragem 'pra viver fazendo as pazes, ou quase'. Essa última revolução solar foi uma coça, andei em carne viva o ano inteiro, meti o meu louco, sofri muito todos os últimos combates. Tive que reaprender a chorar as dores, senão eu seria por mais tempo aquela que está sempre por um fio e, honestamente, nem posso dizer que estou dominando as artes de se permitir entristecer. 

Escrever nesse momento é tentar dar um ghosting nas minhas conversas comigo mesma, intermináveis, fritações pente fino e materializar os meus pensamentos pensando pensamentos. Coisa de gente maluca. Nunca estive tão da pá virada, cansada de racionalizar, querendo ser bicho, porque ser gente não tá com nada. E digo isso com total ciência de que entre os possíveis axiomas, a controvérsia do ser humano é um deles. 

Descobri que apesar de persistente, não quero ser a eremita de porra nenhuma. Quero descansar a mente, ter mais momentos de felicidade, trabalhar menos, outras coisas, sabe? Se vale o desejo para o próximo ano, anseio por outros mundos possíveis - mesmo que alguns deles sejam só meus.

(Cumprindo o meu ritual comigo mesma de me escrever um texto de aniversário. Atrasado, mas valendo.)




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Triângulo da tristeza

Iniciaria essa sentença dizendo que o amor na contemporaneidade é complexo, mas depois de pensar dois segundos sobre isso, percebi que, na verdade, é o tecido social que está rompido, é o ser humano que está quebrado. Ser pessoa na contemporaneidade é complexo. Talvez porque se vive cada vez menos em comunidade, mesmo que ainda existam espaços subversivos — exceção não faz regra. Fato é que me abateu o pensamento de que ser pessoa no contexto neoliberal é contra-hegemônico e, portanto, o amor é penoso. Fiquei chateada, porque encarei com certa distância a ingenuidade da juventude, com os olhos meio cerrados e o triângulo da tristeza tomando de assalto a expressão da face. Como é que se ama “porque sim” depois do enrijecimento da alma? Não existe resiliência na alma; o que existe é a petrificação das variáveis do desejo, esconderijos secretos criados pelos neurotransmissores que mudam a química do nosso cérebro. Amar era mais simples por puro saudosismo — porque, quanto mais se toma con...

Kintsugi

Eu quero fazer o meu rolê e o mundo é complexo . Sei lá. Nesse último semestre a vida tem sido uma loucura, uma vibe meio a esperança dança na corda bamba de sombrinha . Fato que fiquei rançosa com a vida e as pessoas e as relações permeadas até o talo pela imundície do neoliberalismo. Me feriu profundamente encerrar vínculos de longo prazo, lacrar as portas, sumir do mundo ou o mundo sumir de mim. Claro que o meu temperamento colérico de mulher agressiva anseia por uma confusão, uma grande troca de berros olho no olho, pau quebrando, guerra, paulada na nuca. Só que, ao mesmo tempo, eu estou economizando a minha saúde mental, sabe? De saco cheio pra caralho. Eu sou uma operária. A minha alma é apaixonada pela subjetivação que advém do trabalho: o fazer juntos, aprender e ensinar, compartilhar nuances do cotidiano, a sensação de jogar a toalha no fim do expediente e saber que foi a finesse do setor de serviço. Quando o labor é atravessado por outros eixos da existência e desvia um pouco...

FIAT LUX

Fiquei triste porque você partiu. Chorei muito no decorrer do processo, porque existia no meu coração o assombro do encerramento dessa narrativa. Lembro de você o tempo inteirinho, porque fomos construindo a nossa relação tijolo após tijolo, e agora sou só eu no meu castelo de Condessa. Escuto Djavan e penso em todas as idas a São João Nepomuceno, com uma horinha de som rolando, porta-discos e os caralhos. Contava os bois que via pela estrada ao som de Luz ; depois que minha irmã passou para o banco da frente, às vezes eu ia deitada, fitando o céu. Lembro dos sorvetes na Sobel e dos domingos na Cantina do Amigão. Também das vezes que a gente te enlouqueceu na adolescência. Teve também o seu hiperfoco em DVDs, e, de repente, a sala era lotada de prateleiras com mil e um filmes. Escrevi o passo a passo para você mesmo gravar no computador e ainda desenvolvemos uma tabela onde você conseguia localizar qualquer filme em sua exata prateleira. Tive a honra de dividir um chão de fábrica com v...