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FIAT LUX

Fiquei triste porque você partiu. Chorei muito no decorrer do processo, porque existia no meu coração o assombro do encerramento dessa narrativa. Lembro de você o tempo inteirinho, porque fomos construindo a nossa relação tijolo após tijolo, e agora sou só eu no meu castelo de Condessa. Escuto Djavan e penso em todas as idas a São João Nepomuceno, com uma horinha de som rolando, porta-discos e os caralhos. Contava os bois que via pela estrada ao som de Luz; depois que minha irmã passou para o banco da frente, às vezes eu ia deitada, fitando o céu.

Lembro dos sorvetes na Sobel e dos domingos na Cantina do Amigão. Também das vezes que a gente te enlouqueceu na adolescência. Teve também o seu hiperfoco em DVDs, e, de repente, a sala era lotada de prateleiras com mil e um filmes. Escrevi o passo a passo para você mesmo gravar no computador e ainda desenvolvemos uma tabela onde você conseguia localizar qualquer filme em sua exata prateleira. Tive a honra de dividir um chão de fábrica com você.

Não sou capaz de contar quantas tardes e cafés dividimos, porque foram inúmeros e, nesses cenários, nos consolidamos a partir de um trabalho mútuo e diário, com altos e baixos, em uma relação que existia diante do nosso fazer, sem os mantos invisíveis dos laços familiares neoliberais. Meu coração quebrou quando você não me reconheceu mais e perguntou meu nome, mas o fiat lux veio quando você disse ser o mesmo nome da sua filha, porque, em algum lugar, no auge do delírio, eu ainda existia no seu ser. Amei você todos os dias, fui sua filha até o último segundo.

Fiquei triste porque pensei em todos os caminhos que você não vai mais percorrer comigo, na minha formatura, na década de vida da minha filha, em todas as conversas sobre política, sobre o amor na contemporaneidade e sobre o deus do mundo ser o dinheiro. Fritei sobre esse momento por anos, tentando me preparar para quando chegasse, mas senti o bafo gélido da morte numa madrugada de quarta-feira e soube que não há fórmulas.

Mesmo assim, carrego a certeza de que revolucionamos o amor, fomos comparsas, persistimos em romper com os ciclos de violência, nossos corações se aquilombaram e colhemos frutos das nossas políticas de bem comum. Isso me resgata das trevas do luto e da corrosão do tempo.

Saudade para sempre. 


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