Uma coisa que eu desprezo, é ser tirada de maluca. Fico com raiva, porque em geral eu sou muito sóbria sobre as coisas que acredito e defendo, sobre os meus anseios, sobre as batalhas que travo sem terror nenhum. Se for preciso, eu caminho sob as águas e a gente disputa em mar aberto, pode até trazer seu jesus junto pra te ajudar. Foda-se.
Fato é que me acontece muito de ser constantemente colocada em determinadas jaulas, porque quando não maluca, então reativa, grosseira, treteira, mandona, difícil de lidar, radical, militante, combativa, feminista, desbocada, agressiva, doida, inacessível, subversiva, ousada, esquisita. Poderia ficar aqui por horas.
Fico presa no meio entre ser mulher e ser anti mulher. Por um lado, performo algum tipo de feminilidade: raspo o sovaco, pinto o cabelo, uso maquiagem, sou doente com a magreza, pinto as unhas, sou mãe, pratico o cuidado e exerço o trabalho invisível e não remunerado destinado às mulheres. Por outro, sou totalmente anti mulher: me posiciono, não calo a minha boca, não abaixo a cabeça, não raspo todos os meus pelos e nem tenho a maior das paranoias quanto a isso, xingo muito, não faço dieta, não quero construir propriedade privada com ninguém, não tenho medo de homem nenhum, sou corajosa, desprezo injustiça, exercito o meu intelecto, sou crítica e insubmissa.
Mas e pessoa, isso eu sou? Indivíduo, ser humano, sujeito, criatura, ente, fulana, beltrana, sicrana? Não sou. Essa ideia me foi capturada e não me cabe mais. Mais uma das mil coisas que me ressentem com o mundo e com o masculino; que eu me livre disso.
E eu preciso de coragem pra viver fazendo as pazes
Ou quase
Se me der guerra, eu quero mais
O tempo fecha e eu tô de pé chamando temporais
Viciado em caos, na beira do cais
Meu cais é a Depressão Challenger, onde fico na beirola gritando pro alto, porque sou funda para dentro e tenho pânico de porra nenhuma. É exaustivo demais ser pessoa, porque esse olhar nunca será destinado ao tipo de coisa que eu sou. Nesse ponto de agora, me afirmo uma fugitiva: das jaulas do mundo, do controle do homem, da falta de consideração alheia, da canalhice, da disputa de poder, do mal fantasiado de sensibilidades.
Na minha sacola que ninguém vê, carrego o luto do meu pai e a certeza de que amo sem fronteiras.
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