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Ressentimento

 É complicado dizer que estive em uma depressão. Meu momento mais deprimido tem a ver com um ressentimento tão antigo que sinto que me apeguei a ideia de que queria importar a alguém - hoje já não consigo afirmar com tanta precisão. De aniversário esse ano, me dei um lugar novo para morar e isso foi, sem dúvidas, a minha maior conquista de dois mil e vinte e três.  Ando tentando curar o ressentimento, porque deixei que ele me engolisse e retirasse de mim os meus alicerces comigo mesma. Tranquei a faculdade como quem tranca a si próprio nas profundezas do eu, passei dez meses inteiros prisioneira num quarto escuro e úmido, feito pulga - a praga que se manifesta nas minhas mágoas e se multiplica num piscar de olhos.  Há muito o que colocar no lugar. As vezes me sento a mesa de plástico na sala e imagino um mundo novo, porque a desesperança é reacionária e não sou conservadora, anseio pelos recomeços o tempo inteiro. Nesse sentido, já não posso mais passar um durex nos plan...

Ostra nasce do lodo

Achei que não fosse conseguir escrever o meu texto sagrado sobre a minha mais recente revolução solar, praticamente não escrevo mais fora das linhas da minha cabeça. Teve tudo aquilo do que não consegui escapar. Fiquei triste de verdade, sinto que fui encolhendo e não consegui mais voltar a escrever, porque as ideias ficavam soltas, raivosas umas com as outras, sem a possibilidade de definir o que é, exatamente, o que eu vou dar como encerrado nas minhas ruminações. Receio que eu tenha me encontrado com assuntos de um outro eu, e me fere profundamente, porque o amor é o que se faz, não o que se fala.  Completei o último dos vinte e anos. Na última vez que estive aqui cumprindo esse ritual, desejei que o que viesse, não gerasse tumulto. Sinto que fui ingênua com o meu otimismo, porque passei o meu último ano enfrentando bestas enormes do meu passado. Andei tanto em círculos que cavei um fundo do poço, paguei o aluguel mais caro do mundo; depois realizei que mereço mais, juntei ...

Mil e uma noites

Costumo me fazer repetitiva quanto a alguns ditados que permeiam a minha vida; pensando nisso, tenho sido insistente com o fato de que a tristeza é imensa, uma represa massiva com muralhas em volta. Fato é que as mesmas águas que fixam, também são aquelas que rompem. Me atentei que a existência é um ciclo constante de entrar e sair da caverna: deixamos de enxergar somente as sombras, mas o mundo é rude; nele construo um forte e em seu interior ergo, passo a passo, a minha terra prometida. Nos solos sagrados do meu lindo mundo da imaginação, as águas fixam a certeza de que dias mais leves virão, porém também causam rachaduras nos paredões, porque tenho pressa, a mudança urge impacientemente faz dois mil anos. É possível que eu tenha me deixado iludir, entretanto, através dessa fissura, enxerguei aquilo que se manteve oculto, silencioso, do lado de fora.  Me feriu tanto que a tristeza suprimiu a raiva e eu quis chorar por mil e uma noites. 

E eu não sou uma pessoa?

Seria injusto comigo mesma dizer que a essa altura do campeonato a vida já deveria ser melhor; não tenho mais a ingenuidade de pensar que os dias calmos não carregam consigo, também, as tempestades em copo d'água. Rumino muito o cotidiano e quem eu sou - as minhas várias personalidades, os meus inúmeros espíritos obsessores. Achei curioso, porque tem determinadas fritações que vem e vão, sempre diferentes, porque nunca se entra no mesmo rio duas vezes e, não sendo a mesma água e nem eu a mesma pessoa, como é que pode o objeto que me abriu essa tão recente ferida ser uma mágoa antiga? Soube da resposta no segundo seguinte em que questionei, mas será que dá para ser bem resolvido com a misoginia? Com as hierarquias discursivamente construídas?  E eu não sou uma pessoa?  Na 'terra prometida por mim mesma' eu sou.